Mesmo com a biopirataria, tem brasileiro fazendo dimdim com patentes

Óleos e essências da caatinga para a indústria e a saúde

Multinacional de Cosméticos Compra essência de Alecrim-pimenta do Ceará

A busca de cientistas aos óleos e essências da caatinga, iniciada na década de setenta pela UFC, hoje transformou-se em produtos e subprodutos
importantes para a indústria e a saúde. O BNB, através do Fundeci e linhas especificas de crédito, ajudou a viabilizar o projeto.
FORTALEZA, 09.02.2004 – O alecrim que nasce no sertão sem ser semeado está se transformando em divisas para o Brasil e pode ajudar também no combate ao dengue e ao mal de Chagas. A exportação de óleo essencial de uma planta nativa da caatinga é fato inédito no Ceará. A proeza é da Pronat – Produtos Naturais, responsável pela domesticação da planta, sua multiplicação e aproveitamento industrial a partir de uma base instalada em Horizonte, região metropolitana de Fortaleza, com o apoio do Banco do Nordeste. A façanha foi concretizada agora em dezembro quando foram entregues, em Minneapolis (EUA), 200 litros de óleo de alecrim-pimenta encomendados pela Aveda, uma grande fabricante mundial de cosméticos naturais, com mais de 2 mil lojas próprias somente nos Estados Unidos. “Esperamos que isso seja apenas o começo”, afirma Renato Inneco, um dos sócios da Pronat, que pretende entrar no mercado de defensivos naturais, aproveitando o alecrim também como matéria-prima.
O óleo de alecrim-pimenta, por enquanto produzido apenas no Ceará, onde também se encontra o único plantio do mundo, serve tanto para a indústria de cosméticos como às indústrias químico-farmacêutica e alimentícia. Isso significa que há um mercado franco à frente, tanto assim que muitas empresas
já manifestaram interesse em adquirir o produto. Mas toda a produção presente e futura já está comprometida. O preço situa-se em torno de US$ 50
por litro, mas tende a aumentar com a certificação orgânica que a empresa está prestes a conseguir.

Propriedades e usos variados na indústria

Conforme o pesquisador Sérgio Horta Mattos, outro sócio da empresa, o óleo essencial de alecrim-pimenta é muito rico em timol e carvacrol, sendo um dos melhores anti-sépticos naturais do mundo. Na indústria farmacêutica, por exemplo, ele entra em remédios destinados a combater pano branco, caspa, espinha, sarna, impingem, ferimentos, mau cheiro nos pés e axilas. Ele também é um conservante natural e funciona como excelente anti-oxidante.

Toda a tecnologia em torno da planta foi desenvolvida no Ceará, “depois de se quebrar muito a cabeça”, como recorda ele, frisando que somente no Nordeste o alecrim se apresentou economicamente viável. Quando levada a outras regiões, a experiência mostrou que a produção do óleo e o teor de seus princípios ativos caíram bastante. O teor do timol, por exemplo, baixou mais de 50% em cultivos experimentais feitos no sudeste do País.

Quanto à produtividade, ela é muito baixa no campo. A Pronat conseguiu 20 toneladas de massa verde por hectare, que, depois de processadas, podem render 130 litros de óleo essencial. Ao preço atual, significa faturamento bruto da ordem de U$ 7,1 mil por hectare. Muito mais que qualquer grão ou mesmo a uva, com duas safras anuais no semi-árido. “Mas não se entusiasme muito, não, porque a tecnologia para a produção do alecrim orgânico não é nada fácil”, adverte Renato Inneco, que também é pesquisador da UFC.

Os ciclos da planta são complicados e foram dominados ao longo de quase 30 anos de estudos. Da produção da muda até o horário do corte e da adubação, tudo influencia a produção.

Certificação e ampliação dos campos para atender à demanda

Tendo em vista o sucesso e a demanda pelo produto, a Pronat amplia a parte agrícola do projeto, que é toda irrigada e conduzida organicamente. Com novo aporte de recursos do BNB, pretende dobrar a área de alecrim-pimenta de 4 para 8 hectares, a de capim santo, de 1 para 2 hectares, e a de citronela, de 3 para 5 hectares.

Além disso, a empresa já está trabalhando na certificação orgânica tanto na parte agrícola como na parte industrial, através do Instituto Biodinâmico. Como todo o processo adotado na empresa já é exclusivamente orgânico, Sérgio acredita que o período de certificação, normalmente em torno de quatro anos, seja antecipado para antes do final do próximo ano. A certificação orgânica é uma exigência da Aveda – que só compra óleo essencial orgânico. Conforme o coordenador do Fundeci, José Maria Carvalho, a certificação é um processo demorado e oneroso, mas que vale a pena pela agregação de valor que representa. Os empresários estimam que, no caso do alecrim-pimenta, essa elevação chegue a 60% entre a matéria-prima e o óleo.

No total, foram investidos no projeto cerca de R$ 400 mil, entre o financiamento do Banco e a contrapartida da empresa, gerando seis empregos fixos, diretos, e outros dez temporários. Entre a liberação dos recursos pelo BNB e a exportação do primeiro tambor (200 litros) foi apenas um ano, diz Sérgio, lembrando a correria para aquisição, montagem e teste dos equipamentos, compra de insumos, preparo da matéria-prima e obtenção do produto final.

DA INCUBADOURA À FORMALIDADE

A história da Pronat, visitada semana passada por um grupo de técnicos do BNB/Etene, é recente. Começa quando os sócios, amigos e pesquisadores Sérgio Horta e Renato Inneco se juntaram a outro amigo, o engenheiro Flávio Nogueira, para instalar uma empresa incubada no campus da UFC, em Fortaleza. O objetivo era aproveitar a tecnologia agronômica que já dominavam para produção do óleo essencial do “Lippia sidoides”, conhecido popularmente no Nordeste como alecrim-pimenta.

Em 1999, concorreram e ganharam uma vaga no Padetec. Em junho de 2000, já estavam instalados naquele parque tecnológico e, dois anos depois, estabeleciam uma parceria com a firma norte-americana que garantiria a compra do óleo e a base tecnológica relativa à destilação de plantas aromáticas. Logo depois, o BNB aprovava o projeto para a parte de campo e instalação da destilaria, feita em tempo recorde e dentro de padrões internacionais, inclusive quanto aos aspectos ambientais, já que utiliza gás natural.
Alecrim gera bioinseticidas para combater mal de Chagas e dengue

As propriedades do alecrim-pimenta também estão sendo utilizadas em formulações destinadas a combater os vetores do dengue (aedes aegypti) e mal
de Chagas (“barbeiro”), e têm uso amplo como defensivo agrícola quando agregadas a substâncias retiradas de outras plantas. A pesquisa é feita pela Universidade Federal do Ceará, com apoio do Fundeci e parceria da Pronat e da Prefeitura de Pentecoste (CE). De acordo com o engenheiro-químico Paulo Teles, do Fundeci, a empresa vai utilizar o hidrolato de alecrim-pimenta. Trata-se de um subproduto líquido obtido quando da extração do óleo essencial de alecrim-pimenta, por arraste a vapor. Esse óleo tem forte ação antimicrobiana em fungos e bactérias. Para a pesquisa de controle, foram elaborados dois bioinseticidas à base dos hidrolatos de alecrim-pimenta e de capim-citronela (Cymbopogon winterianu). Ambos estão sendo utilizados em dez bairros de Pentecoste pelo sistema de pulverização conhecido popularmente como fumacê. Os dados parciais indicam que todos os tratamentos estão sendo altamente efetivos no controle do mosquito adulto transmissor do dengue. No tocante ao controle do “barbeiro”, o experimento é conduzido na localidade de Macacos, zona rural de Pentecoste, com resultados parciais igualmente promissores na redução da incidência dos insetos.
Patente de defensivo

Fruto de experimentos anteriores, a Pronat já patenteou o produto que se presta ao combate de doenças que atacam cajueiros, castanha, coqueiros, melão e flores. A Embrapa, responsável pela sua aplicação, já deu indicações de sua eficácia no caso do caju, idêntica à obtida pelo produto químico comercial. Isso significa muito para a economia e o produtor nordestino. Primeiro, porque implicará menos importação de produtos hoje usados; segundo, mais saúde para as culturas e os consumidores, pois a formulação é natural e não-química. A citronela, planta natural de Java que se adapta bem no Nordeste, além do alecrim, entra na composição desse defensivo agrícola natural. Na formulação, entram também o capim-santo e o nim, espécies igualmente cultivadas na propriedade arrendada pela Pronat, em Horizonte, a 45 km de Fortaleza.

A multinacional que está adquirindo toda a produção de alecrim-pimenta também interessou-se em importar o óleo essencial de capim-santo e de outras
plantas, a exemplo da verbena, em processo de adaptação no semi-árido, e da mil folhas, cujo óleo essencial chega à “bagatela” de US$ 1.200 por litro.
Todo esse trabalho está sendo possível graças à saga de um punhado de cientistas cearenses, ligados à Universidade Federal do Ceará. Nos anos setenta, contando com o apoio do BNB e CNPq , a equipe de agrônomos, químicos e farmacêuticos embrenhou-se sertões adentro para identificar plantas do semi-árido com potencial econômico e farmacológico. Das espécies coletadas, cerca de 150, algumas delas estão apresentando bons dividendos trinta anos depois. Outros nem tanto. Continuam no anonimato, apesar do potencial. Mas isso é outra história.

Fonte – Banco do Nordeste – Superintendência de Comunicação e Cultura – (85)
299.3504 (Ribamar) – ribanet@… <mailto:ribanet@…>

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