Os cheiros da Infância – Artigo de Arnaldo V. Carvalho

Os cheiros da Infância

Arnaldo V. Carvalho*

Ainda me lembro dos cheiros da minha avó. O cheiro que ela tinha, um doce perfume de velhinha, que me fazia adormecer quando nela recostava, no banco de trás do carro de passeio que nos conduzia de volta para casa após um dia animado em um local de veraneio.. Me lembro do cheiro das coisas que ela usava em seu banheiro: o frasco de laquê, o ruge… Me lembro do cheiro do pudim de leite que ela fazia. Não era de leite condensado, era leite mesmo! Lembro do cheiro da ambrosia no fogo, na época do aniversário do meu avô, e dos misturados cheiros do velho casal na cama onde, por vezes, eu ia para ouvir histórias de pássaros coloridos, macacos japoneses e ratinhos espertos.

Todo mundo pode escrever muitas e muitas linhas sobre os cheiros da infância. Está marcada para sempre aquela rua onde ao passar se sente o cheiro dos jasmins ou da dama-da-noite. O tronco da árvore onde se subia, da casca da tangerina sendo aberta para comermos. A passagem por uma área rural e o cheiro do cocô de vaca, do cocô de cavalo, da titica das galinhas. O cheiro da borracha e demais itens de papelaria, da gasolina, do desinfetante que se usava em casa. Cheiro da casa de um tio. Cheiro do brinquedo novo, da gente do campo, da água de poço, dos temperos dos sítios vizinhos…

Evocar um cheiro é evocar histórias. Histórias de um tempo de surpresas, vida, fantasias, interrogações e espontaneidade. É na infância que se constroem valores… E para cada um deles existem cheiros associados. Assim, dentro de cada um, pudim vira carinho, peru vira fartura, gasolina lembra passeio, borracha de lápis lembra independência, plástico novo torna-se brinquedo, que sempre é coisa boa e tem a ver com coisa divertida, com gratidão e com sentimento de simplesmente ter algo para si.

Os cheiros mais importantes na vida emocional de uma criança são os cheiros dos seres humanos com quem ele convive. O cheiro do pai e da mãe e dos irmãos são inconfundíveis, e são fundamentais. São cheiros referenciais, que marcam o mundo até o fim da vida. Deixamos a síntese de nossa personalidade nos filhos ao emprestarmos-lhes os cheiros nossos. O contato com pele da mãe e do pai com o bebê, quando ele deita sobre o peito do pai e da mãe enquanto estes descansam numa rede ou poltrona. Dependendo da relação dos pais com os filhos, seus cheiros trarão recordações melhores ou nem tanto, mais ou menos intensas.

Que cheiros rodeiam seus filhos? Que vínculos eles criarão?

Além da formação de memórias

O universo olfativo vai além de vincular memórias e emoções a cheiros. Há cheiros que agem sobre os indivíduos sem que isso se relacione com memórias. Nesse caso, atuam porque o cérebro reage a eles produzindo química uma hormonal específica, que é capaz de alterar emoções, sensações físicas, a percepção em si, etc. O curioso é que em geral os odores da natureza, especialmente dos vegetais, nos trazem sensações agradáveis – um sinal de que a hormonação é levada a níveis mais equilibrados.

Foi assim que os antigos reconheceram que os cheiros podem mudar o astral de alguém. Eles utilizavam folhas frescas, flores e vegetais diversos em fogueiras e vapores, e através da fumaça que entranhava em suas roupas, cabelos e carne, sentiam-se revigorados, mais equilibrados, com saúde – e daí nasceu o perfume, “per fumum” (através da fumaça).

E é assim que cientistas do mundo inteiro vêm estudando e comprovando a enorme influência dos aromas. As pesquisas sobre olfato nas universidades de todo o mundo já ultrapassam de longe 50.000 artigos científicos, e mais de 200.000 sobre as plantas aromáticas, num único banco de dados acadêmico*. O sistema olfativo foi tema de trabalho laureado com o Prêmio Nobel em 2004. Nos Estados Unidos já existe o Sense of Smell Institute, organização voltada ao estudo e divulgação da influência dos cheiros no ser humano. O mundo dos aromas interessa à psicologia, ao marketing, às medicinas tradicionais, à antropologia e às ciências da saúde em geral. O tema tornou-se de tal grandeza que daí surgiram diversos campos de aplicação e estudo, como a aromacologia, a aromatologia, entre outros. A aplicação final de tudo isso vem sendo popularizada como Aromaterapia, simplesmente.

Pois bem, são os pequeninos ao mesmo tempo mais resistentes, e por outro lado mais suscetíveis que os adultos, no que diz respeito aos efeitos dos aromas. São mais resistentes porque o fígado infantil em geral é bem menos intoxicado que o adulto, e o fígado participa ativamente no conjunto de reações fisiológicas ao cheiro. São mais suscetíveis porque seu organismo é mais reativo a todo o tipo de estímulo. Finalmente, é mais suscetível o organismo infantil porque ele possui menos registros de memória, e tais registros atuam como moduladores da força de um cheiro sobre a química hormonal.

O cheiro sutil é indisfarçável

O odor dos adultos que convivem com a criança está além do que se percebe conscientemente. Há um “aroma hormonal”, imperceptível no plano objetivo, mas nunca ignorado no plano objetivo, ligado à identificação das ligações interpessoais, e ao estado geral do que está a nossa volta. Como uma espécie de “invisibilidade olfativa”. É assim que muitas crianças detectam se uma mãe está com “aquele cheiro esquisito”, quando esta está no período menstrual, ainda que esta tenha acabado de sair do banho e tenha colocado algum perfume. Esse aroma secreto mostra como estamos nos sentindo, e para ele, não adianta tomar banho! Nem passar perfumes! Não há como mascarar a infra-estrutura interna de cada um.

Paradoxalmente, esses mesmos banhos e perfumes podem, sim, dar nova vida a alguém. Podem reparar e curar. Banhos e óleos essenciais nos resgatam o equilíbrio. O contato do indivíduo com um aroma natural representa o contato entre duas naturezas – a natureza externa do mundo, reflexo e reflexora da natureza interna do indivíduo. Esse contato impele ao contato da gente com a gente mesmo, com quem nós somos, e propulsiona um autoconhecimento abstrato, que passa pela reorganização física, mental, energética.

Podemos então dizer que a utilização consciente de um aroma natural (e isso pode significar uma simples visita a um jardim!) ajuda no despertar do verdadeiro odor de cada um – o “invisível”! – , cuja criança irá distinguir para sempre como algo único: o cheiro da alma daqueles que o amam e daqueles que ele ama influenciarão o caminho.

O adulto guia os filhos em sua jornada de crescimento, e poucos percebem que suas delicadas presenças também pode mostrar o caminho que está sendo tomado, coletivamente, e individualmente.

Uma vez que se compreenda acerca do valor do mundo olfativo, passemos a suas aplicações práticas no mundo da criança.

A Aromaterapia

Como afinal aplicar ao menos um pouco das tantas lições que podem ser aprendidas acerca dos cheiros pela aromaterapia?

Quando a gente fala de aromaterapia, pode estar se referindo a qualquer tratamento que envolva cheiros. Mas a origem mesmo desse termo diz respeito aos óleos essenciais, a parte da planta destinada a torna-la cheirosa, para o bem da própria planta (os óleos e seus cheiros são usados para atrair ou repelir seres vivos com a qual a planta se relaciona) , e que está cheia de princípios ativos, capazes de provocar diversas reações no ser humano. Os óleos podem ter sido extraídos da planta – e assim estarão em concentrações poderosas e com as quais se deve ter muito respeito – ou podem estar lá com elas, em medidas sempre seguras, e muitas vezes eficazes.

As crianças em geral adoram o mundo dos aromas e dos óleos essenciais, e rapidamente aderem ao uso consciente dos mesmos. São capazes inclusive de pedir por certos cheiros a medida que identificam seus estados físicos e emocionais.

Crianças que antes dormiam mal e que passaram por tratamento com lavanda frequentemente recorrem a este óleo quando ansiosas ou agitadas, pedindo para quem os colocava em contato com este aroma durante o processo de reequilíbrio (esse contato sempre segue as orientações da aromaterapia, e deve ser conduzido com preparação adequada e/ou por profissional da área, conforme o caso).

Crianças sem fome porque comeram não devem ser preocupantes. Mas se há inapetência geral, é sinal de que não estão conseguindo por algum motivo ser o que elas são: Crianças. Nesse caso, a utilização do óleo essencial de laranja dispersado no ambiente da criança pelo menos uma hora antes da refeição resulta na grande maioria dos casos.

Pequeninos com distúrbios ligados a insegurança e medo em geral encontrarão alívio em combinações de óleos florais como a lavanda e o gerânio.

Crianças criativas e com um mundo mental forte adoram hortelã.

As fechadas se expressam melhor em contato com o eucalipto.

Enfim, há uma infinidade de exemplos de ações e reações a ilustrar as vivências da meninice e como podemos torná-la mais saudável. Cada indicação contudo deve levar em conta uma série de fatores externos, condições de saúde interna, variabilidade dos próprios óleos, condições de utilização, concentrações, etc., que somente uma pessoa com formação própria saberia orientar. Procure um profissional de saúde habilitado a prestar orientações aromaterápicas, e observe seus filhos e crianças sob seus cuidados a exalarem o esplendor de quem desabrocha para a vida com todo o seu potencial. Amém!

* Números obtidos no Pubmed após busca com algumas palavra-chave referentes aos cheiros e ao olfato.

Para saber mais:

Sense of Smell Institute –

Aromatologia e Aromaterapia – http://www.aromatologia.com.br

Medline – http://medline.cos.com/

National Library of Medicine – http://www.nlm.nih.gov/

Medline Plus – http://medlineplus.gov/

Pubmed – http://www.ncbi.nlm.nih.gov/ (Base de dados do National Center for Biotechnology Information)

Prêmio Nobel 2004: http://nobelprize.org/nobel_prizes/medicine/laureates/2004/
*Arnaldo V. Carvalho – Terapeuta humanista, com formação em Naturopatia e diversas terapias corporais, autor do livro Shiatsu Emocional e professor de muitos cursos inclusive o de Aromaterapia, fundador dos sites Calor Humano, Portal Verde, Aromatologia & Aromaterapia e de diversos blogues correlatos, defensor da afetividade humana, da qualidade relacional e dos direitos de Ser antes mesmo do nascimento, Pai Coruja, e Ser Humano.
http://www.arnaldovcarvalho.com, arnaldovcarvalho.wordpress.com, http://www.portalverde.com.br, http://www.shiatsuemocional.com.br, http://www.aromatologia.com.br, portalverde.wordpress.com, http://www.calorhumano.com.br

*   *   *

Esse texto foi originalmente publicado no Blog Maria Matusquela:

http://mariamatusquella.blogspot.com/2009/07/recebi-de-um-amigao-um-texto-mais-que.html

2 responses to “Os cheiros da Infância – Artigo de Arnaldo V. Carvalho

  1. Que lindo Arnie, me fez lembrar a minha infância com a minha avó que de vez em quando me dava umas chinelas por “roubar” as borboletas (nada mais nada menos que lirio do brejo), colocar numa bacia e ficar ali, deitada me sentindo uma rainha. Há 50 anos atrás eu já fazia ofurô.
    Um beijo e quando estiver pelo nordeste me avise. Quero Shiatsu Emocional em João Pessoa tá?

    Gostar

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