Incorporação de óleos essenciais em tecidos: tudo de bom! (a princípio)

Por Arnaldo V. Carvalho*

Aqui está um link dentre outros, anunciando a aplicação de óleos essenciaiss em tecidos:

https://olhardigital.com.br/noticia/tecido-inteligente-libera-odor-agradavel-quando-usuario-transpira/88687

É verdade que alguns métodos (como utilizar proteína extraída de nariz de porco) ainda não são bacanas. Mas a presença crescente de tecidos inteligentes que incorporam óleos essenciais aponta para algo que pode se tornar tendência e trazer uma nova definição de roupa e de “odorificação social”.

Embora a indústria por enquanto pareça estar focada no “desaparecimento do mau odor”, o fato é que a liberação de odores por uma roupa pode produzir efeito sobre quem veste e sobre quem está em contato com quem veste.

Dentro disto, é bom trazermos à lembrança quee roupas possuem funções sociais de alta importância e impacto. Embora tal discussão ultrapasse a proposta deste blog, o fato é que seu apelo sempre foi relacionado a visão (cores, cortes, padronagens, etc.) e ao tato (tato, texturas, etc.). As roupas e adornos figuram entre as primeiras máscaras do ser humano, e com a incorporação de aromas, podemos fazer muitas perguntas sobre o novo impacto delas na vida humana. Por exemplo:

– Se os óleos essenciais influenciam a psique, é possível que a indução a estados mentais mais relaxados possa, no mascarar de situações reais de tensão, reduzir também as atitudes de resistência contra o que as origina?

– O design das roupas será influenciado pelos aromas que elas carregarem?

– Uma reduzida variedade aromática, a despeito da grande variedade de roupas na atualidade poderá contribuir para a homogeneização das pessoas?

– Os fabricantes lançarão seus produtos com objetivos secundários e silenciosos para além de uma preocupação com a desodorização?

– Se o consumo de roupas aromáticas em algum momento se consolida e se massifica, qual é o impacto disso em termos ecológicos, visto que os óleos essenciais precisam ser extraídos de plantas que muitas vezes precisam ser arrancadas ou cortadas inteiramente, e sua extração nem sempre é rentosa?

– Em algum tempo as roupas aromáticas receberão essências sintéticas no lugar de óleos essenciais? O potencial alergênico disperso nos ambientes pelo trânsito das pessoas vestindo roupas aromáticas poderá ser amplificados? Há chance dessa “roupa aromatizada artificialmente” baratear custos e ter como destino o pobre, que será o mais afetado pelos problemas de saúde que um eventual aroma com potencial alergênico poderia causar? Em termos mais amplos, as roupas aromáticas e sua qualidade serão mais um elemento segregador/extratificante, seguindo a lógica das coisas do mundo tal como ela opera nos dias de hoje?

Finalmente, uma última pergunta: será que os proponentes dessa ideia (que sigo achando brilhante) estão preocupados com perguntas como essa ?

* * *

* Arnaldo V. Carvalho estuda óleos essenciais, a mente e o mundo olfativo desde 1994. Na contracorrente comercial da Aromaterapia, defende acesso democrático e consumo responsável nesta área.

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